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Fotografia indiana

Fotógrafo conta como é fotografar a beleza da india

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Fotografia indiana

 

A Índia é um país cheio de superlativos. Foi, e ainda é, retratado por grandes escritores, grandes artistas; lembrado pela sua religiosidade ampla, do budismo ao  hinduísmo; pela sua enorme produção cinematográfica, através da Bollywood (fusão de Bombay com Hollywood) e exageros em diferentes manifestações: sétimo país em área geográfica, segundo em população, e como não poderia deixar de ser, por uma produção fotográfica também expressiva, embora nem tão popular como suas outras artes, mas igualmente generosa e rica.

Fotografia indiana

Muito mudou desde que Sir Richard Burton (1821-1890) tornou popular no Ocidente os The arabian nights (os contos das 1001 noites) ou o Kama Sutra (saga erótica indiana) no final da era Vitoriana. Das imagens da dupla Bourne & Shepherd, retratando a Calcutá de 1867, até as manipulações fotográficas em 3D do artista Baiju Parthan, de 2011, a produção do país passa pelo registro documental clássico e vai para as experimentações multimídias. Se o mundo mudou, os fotógrafos e artistas indianos também  não ficaram parados.

Parte significativa dessa produção fotográfica foi exposta no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, na mostra Índia, lado a lado, Arte Contemporânea indiana, onde diferentes artistas e fotógrafos compartilham uma imagética tão ampla quanto a literatura e os textos religiosos de seu país. Lá estavam  registros documentais, bem como a nova arte indiana, que como as de outros países, encontrou na fotografia um novo sopro criativo.

Não há dúvida que essa extensa produção vem sendo mediada pelo olhar ocidental, que tenta traduzir as peculiaridades de um país que tem como força motora um exotismo, muitas vezes caracterizado por uma visão peculiar, com uma importância forjada mais na estranheza de seu conteúdo do que nas características artísticas ou fotográficas que estas poderiam representar.

Por muito tempo a fotografia definiu um papel expressionista, calcado em parte na representação do retrato, da imagem de rua (street photography) no posicionamento político (as transformações da era colonial à independência) como as imagens de Homai Vyarawalla (1913-2012) e suas antológicas fotografias do Mahatma Ghandi, até chegar nas contemporaneidade quando seus produtores se rendem as performances e instalações, eco de um caminho aberto por artistas como Avtarjeet Dhanjal ou Anish Kapoor.

Fotografia indiana

Se podemos considerar que existe uma “imagem indiana” ela deve ser creditada a fundações como a Alkazi Foudation of Art, baseada em Nova Dheli, que desde 1995 vem se dedicando a pesquisa e preservação da fotografia. A Alkazi Collection of Photography (ACP)  reúne cerca de 85 mil imagens do século 19 e do século 20, oriundas do Sul da Ásia, da África do Norte e do Oriente Médio, entre negativos de acetato, cópias vintage, negativos de vidro, álbuns que vieram da Índia, Nepal, Sri Lanka, Afeganistão, Tibet e Burma entre outros países.

A arquitetura, a arqueologia, o desenvolvimento da colônias, estão registrados fotograficamente. Além dos fotógrafos orientais, temos imagens produzidas por grandes artistas do ocidente que vão do italiano Felix Beato (1832-1909) ao francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004) que colaboraram definitivamente com a expansão dessas imagens ao redor do mundo. No entanto, é em trabalhos como o de  Vyarawalla, seguidora de Ghandi, e considerada a primeira fotojornalista indiana que se tem notícia, que a imagem contemporânea se firma.

Para a compreensão do processo evolutivo da imagem indiana, temos que retornar alguns anos, com o trabalho da dupla Bourne & Shepherd, estabelecidos em Agra desde 1863, considerado o mais antigo estúdio fotográfico no país e um dos mais antigos no mundo. Charles Shepherd e Samuel Bourne, bem como os fotógrafos do estúdio de John Nicholas & Co, abriram caminho para a documentação do povo e arquitetura indiana e caminharam juntos com a evolução da fotografia ao redor do mundo, tradicionais estúdios fotográficos que atendiam principalmente as comunidades mais abastadas das grandes cidades.

Os tipos humanos, retratos do dia-a-dia, de cidades como New Delhi ou Calcutá, cujas reverberações alcançam expressão internacional, foram se estabelecendo no cânone, chegando às representações contemporâneas, em obras de expressivos fotógrafos como Manu Thomas. Para este fotógrafo, “há uma espécie de fascinação e riqueza, naquela imagem suburbana, diferente da visão rural”. Em suas séries, extraídas do caos das grandes cidades, cuja poesia é um denominador comum, ele destaca “uma beleza interior no meio de um trabalho incessante e duro”.

Fotografia indiana

Baseado em Bangalore, Mahesh Shantaram é uma das expressões do novo documentarismo indiano. Segundo ele, “um documentarismo subjetivo” que em vez de ser abatido pela responsabilidade de dizer a verdade – o que para ele, é quase impossível – apenas registra os eventos que acontecem, ou traduzindo: suas experiências mais pessoais. Curiosamente, Shantaram passou um longo tempo nos Estados Unidos, mas se deu conta que estava perdendo seu tempo “em um cubículo em Washington” e resolveu retornar a Índia, onde se tornou o mais popular fotógrafo de casamento, conta ele.

Já no século 20, o poder da câmera se alterou, desprezando o retrato da riqueza colonial  em direção ao da auto-representação e dos retratos mais populares, o que deu maior responsabilidade aos estúdios locais. Ou seja, não bastava ter a família documentada, mas esta imagem tinha que durar para a posteridade. Nesse caminho podemos incluir as manipulações anteriores aos softwares, como o Photoshop, uma associação com a pintura indiana que aplica à fotografia seus truques mais elementares, levando o resultado as vezes com uma leitura kitch, as  vezes surrealista.

Como em outros lugares do mundo, parte dessa sintaxe fotográfica recai sobre a produção dos retratos, fio condutor das mudanças sociais e econômicas. E, se anos atrás, a formalidade e a pompa imperavam, a informalidade do cotidiano passa ser o mote dos fotógrafos mais contemporâneos como Manu Thomas, Ronny Sen, Swarup Dutta e Rajesh Vora, entre outros que integram o Pix Collective, formado também por curadores e pesquisadores, coordenados por Rahaab Allan.

O grupo Pix também edita a “Pix A Photography Quarterly” uma revista trimestral que parte da premissa que a fotografia é um meio evolutivo que coloca o mundo em termos tangíveis, através das mais diferentes maneiras, seja em termos temporais, espaciais ou históricos, revelando suas informalidades tanto quanto sua incongruência. O coletivo trabalha não somente com a imagem de arte mas com o editorial procurando a difusão da nova imagem indiana, principalmente através das mídias digitais. Para eles a imagem não se limita ao papel, e a proposta multimídia abre outras perspectivas.

O documental clássico, como o produzido por fotógrafos Raghubir Singh (1942-1999) um dos pioneiros da imagem em cor, certamente tem uma participação predominante nessa produção mais contemporânea. Singh atuou na Europa no início da década de 1970 e foi um dos primeiros fotógrafos a inserir o uso da cor no documental, em contrapartida a ortodoxia determinada pelo preto-e-branco. As suas imagens feitas em Bombaim, revelam a anatomia geográfica e social da Índia em meio as suas complexidades. Ele também foi professor na Escola de Artes Visuais da Columbia University, em Nova York.

Fotografia indiana

O indiano Raghu Rai, da Magnum Photos, é outro nome importante que abrange o mercado internacional por conta da difusão de sua agência. Nascido na pequena vila de Jhhang, hoje pertencente ao Paquistão, ele foi indicado por Henri Cartier-Bresson em 1977 para fazer parte da famosa cooperativa. Já publicou mais de 18 livros, alguns antológicos como “ Tibet in Exile” (Mondadori, 1990) e The Sikhs (Lustre Press, 1984). Rai tem uma leitura muito particular com seu preto-e-branco, mas transita pela cor com a mesma segurança com que trata seus retratos intensos, como os de Madre Teresa de Calcutá ou as grandes manifestações de rua.

Fotografia indiana

Com posturas mais ecléticas, as inter-relações com a arte não ficam muito atrás, apesar de que estas se alimentam igualmente do registro documental, seja no caráter étnico, seja no uso da arquitetura como referência para instalações cuja a base é fotografia, nas projeções multimídias e nos trabalhos com imagens 3D. Pushpamala N é uma artista que usa o retrato em instalações fotográficas ou vídeos, focando na questão étnica e da mulher, colocando a questão da autenticidade da imagem como leitmotiv de suas obras.

Se a pauta do momento é discutir qual seria a contribuição da fotografia no mundo real, ou melhor, se a fotografia é ou não realidade, questões que impelem os filósofos e pensadores, encontramos artistas como Baiju Parthan que trabalha com manipulações fotográficas em 3D, compondo grande painéis. Com uma carreira iniciada com a pintura, ele é reconhecido como pioneiro da arte interdisciplinar e intermidiática na Índia. De maneira crítica Parthan une a questão urbana com o universo onírico numa espécie de provocação surrealista, questionando o crescimento irregular e desordenado de seu país.

Fotografia indiana

O eixo global/local gerou uma dicotomia ancestral na arte moderna indiana, entre tradição e modernidade, afirma o historiador de arte indiano Deepak Ananth, professor da École des Beaux-Arts em Caen, Normandia. Para ele, o meio pictórico é privilegiado, sendo ancorado na iconografia e na realidade social, temáticas vivenciadas pelos artistas que aderiram as técnicas mistas de representação. E, se a arte indiana repercurte internacionalmente, encontramos definitivamente na fotografia, como mídia principal ou como suporte, um papel cada vez mais essencial em sua representação.

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